23/7/99 - 0:28
“Marcos dez, nove” - assim ouviu o meu misterioso ouvido.
E eu vou atrás dele, cada vez mais afoito, como um cada vez mais experiente
explorador do Desconhecido. Mora toda lá, a minha realidade. Aquilo que agora
chamamos realidade é, em mim, tão inconsistente, que está destinado a
desaparecer. Mas aquela outra Realidade, de que vivo e dependo cada vez mais,
acompanha-me já. Tão oculta aos olhos dos homens, que ninguém a vê. Mas é já
tão forte, que se me torna uma tortura viver ainda agarrado à minha realidade
visível, até que de todo ela desapareça à vista do mundo. Liberta do peso da
carne, será então visível apenas aos corações. Mas se for da vontade do seu
Senhor que ela se visualize perante os olhos da carne, ela poderá fazê-lo à
velocidade da luz, com a mesma facilidade com que a luz se desprende da sua
fonte e atinge o seu alvo.
Tenho tantas saudades desse corpo de Luz, eu que de resto nunca tenho
saudades do que deixei! É que esse meu corpo desde sempre existiu, no Sonho do
seu Criador, na Ânsia do seu Redentor, na Palpitação do Princípio da Vida que
nunca o abandonou. Guardo dele uma memória que se me aviva a todo o instante e
o alimenta à medida que ele vai sendo restaurado, como se fosse o seu coração.
É também esta memória que continuamente ronda a escuridão envolvente à
procura de alimento, como um feto no útero materno. É a esta sonda que eu chamo
ouvido. Levou-me ele desta vez a
onde encontrei este alimento:
“Aquilo, pois, que Deus uniu, não o separe o homem”.
- Meu Amigo da Escuridão, vem comigo arrancar ao
Desconhecido o alimento que estas palavras contêm.
- Diz então o que sentes em cada momento, mesmo que te
pareça nada ter a ver com estas palavras.
- O que sinto é essa memória lúcida do meu ser
original?
- É. Ela nunca te engana, se a não tiveres sujeita a
nenhum outro dono senão ao seu Criador.
- Ela não é permeável a sujeições más?
- Ela pode ser abafada pelo estrondo da Cidade, mas
basta que se lhe dê um instante de silêncio para ela logo se reorientar para a
Verdade.
- Olha, Mestre: aquelas Tuas palavras vêm no contexto
do matrimónio, mas já me ensinaste que elas são para entender em si mesmas, como
um dos Teus grandes Princípios: o homem não pode nunca desunir nada do que Deus
uniu.
- E que uniu Deus?
- Tudo. A Unidade faz parte intrínseca de cada ser.
Perde todo o sentido, por exemplo, um estômago retirado do seu lugar e da sua
função.
- É o lugar e a função que fazem a Unidade?
- Lugar e função fazem de tal maneira parte de cada
ser, que o ser se desagrega e morre, caso seja removido do seu lugar e da sua
função. Cada ser, para subsistir, tem que estar no seu lugar e executar a
função que do Criador recebeu ao nascer.
- Volta de novo às tuas sensações interiores…
- Eu estava justamente sentindo que se me esvaía a vida
ao falar assim friamente da Unidade.
- Sentiste que alguma coisa em ti não estava ocupando o
seu lugar, cumprindo a sua função?
- Sim… Quando raciocino, parece resfriar a vida.
- O raciocínio desune?
- É essa a sensação que eu tenho. Parece que as batidas
do coração vão ficando cada vez mais longe…
- Mas sem raciocinar, como chegarias ao conhecimento
das coisas?
- Creio poder dizer que nunca me veio do raciocínio o
Conhecimento que me tens dado.
- Veio de onde, então?
- De um fluxo de vida que me vem do âmago do ser.
- Mas já várias vezes nestes Diálogos te queixaste de
Eu te deixar enveredar pela via do raciocínio…
- Sim. E Tu explicaste-me que o fazias por causa do
Princípio da Incarnação: é preciso ir buscar as pessoas onde elas estão.
- Por amor às pessoas Eu sujeito-Me à desunião? Deixo
de ocupar o Meu lugar e de exercer a Minha função?
- É verdade, meu Amigo! O Teu lugar era no Céu, no Seio
do Pai e a Tua função era a de ser Rei da Paz. Ora Tu vieste ocupar um lugar na
terra, assumindo uma função de escravo!… De Rei da Paz passaste a Servo da
Desordem!
- Diz então agora que alimento estás colhendo daquelas
Minhas palavras fixadas por Marcos.
- Por causa da dureza do nosso coração Tu Te fizeste
Desordem, como Moisés permitiu o divórcio. Mas o Teu Caminho dirige-se para lá,
para o Princípio, em que tudo saía das Mãos do Criador com um lugar e uma
função. Tu eras Rei e o Pai fez de Ti Caminho para restaurar o Teu Trono!
São 3:32.