Sobre isto deu-me a Rainha do Céu esta noite uma muito elucidativa lição. Apesar de não ter já da santidade aquela imagem errada, estou ainda claramente prisioneiro daquele conceito tão antigo, ao menos em alguns aspectos. Tenho ainda a difusa noção de que é preciso fazer muito esforço para nos mantermos no caminho da Libertação que Jesus nos veio abrir. Ora é justamente de Libertação que se trata quando nos deixamos seduzir por Jesus. É, portanto, tudo o que há de mais contrário a qualquer tipo de opressão. Nunca Jesus nos enganou, prometendo-nos um caminho fácil. Mas andámos esquecidos, ao longo de todos estes séculos, daquela outra palavra do nosso Mestre: “O Meu jugo é suave e a Minha carga é leve”.
Foi esta suavidade e leveza que senti ao fim da vigília de hoje: a minha Companheira abraçava-me ternamente, numa inesperada compreensão para com a falta de vigor da minha carne, a que nada mais é pedido senão que se conserve vigilante. Então recordei: no início eu levantava-me imediatamente todas as vezes que acordava. Chegava a levantar-me quatro vezes! Não raro permanecia nu durante bastante tempo e a temperatura era já muito fria. E fazia nesse tempo menos esforço do que agora. Não admira, pois, que a Rainha do Céu me tenha tranquilizado também quanto à tentação de me desculpabilizar. É que a Santidade não é uma empresa nossa, mas um amoroso Dom de Deus, que nos torna suave e leve todo o sacrifício.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
737 — Pensamos que a santidade é para gente excepcional
– 10:25:25/6
Estamos habituados a ouvir falar da santidade como um caminho muito especial de alguns particularmente para isso vocacionados e que nos aparecem invariavelmente como homens e mulheres austeros, cheios de força de vontade e espírito de sacrifício, desinteressados de tudo o que é agradável à carne, fazendo um esforço sobre-humano para se manterem nesse estranho caminho e nele perseverarem até ao fim. Normalmente vemos neles, por isso, pessoas excepcionais, colocadas acima da gente comum, admiramo-los e consideramos que eles estão bem colocados para obterem de Deus favores para nós, gente vulgar, que não consegue chegar tão alto.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
736 — Poderiam ser estes Diálogos uma falsa profecia?
11/4/03 – 5:23
Já são agora 7:09. E todo este tempo o passei como o passam os cães de guarda: olhos fechados, uma leve sonolência, um torpor em todo o corpo. Qualquer leve ruído me chamaria a atenção. Sinto, por isso que, apesar de me não ter levantado, estive vigilante. Mas alguma dúvida permanece ainda em mim…
– Queria, por isso que me falasses ainda um pouco sobre esta minha apreensão, Maria.
– Exprime então claramente qual é o teu problema.
– Ficar assim duas horas na cama nesta modorra tem todo o ar de preguiça e de desleixo.
– Já reparaste em que agora acordas sempre mais tarde?
– Sim, dormia quase sempre só três horas por noite e agora sempre vou até às cinco, ou mais…
– Vá, não tenhas esse outro medo. Deita-o cá para fora, para que se veja.
– Tenho também ainda o medo de Te fazer dizer aquilo que me convém.
– E é ainda forte esse medo?
– Dói-me particularmente. Parece que me estou sempre desculpabilizando, para não ter que fazer coisas difíceis, para não ter que me desinstalar daquilo que me é agradável. E isso, a ser verdade, esconderia uma perigosa tentação.
– Qual?
– A de passar a escrever aqui não a Palavra de Deus, mas a minha encapotada perversão.
– Se passasses a escrever a tua perversão, sabes o que aconteceria a estes milhares de páginas que escreveste?
– Sei: iriam parar à lixeira.
– Não poderiam elas ter um êxito perverso, alimentando a perversão de muitos?
– Julgo que não: se isto fosse uma falsa profecia, ninguém teria paciência para ler tão triviais e ridículas coisas para chegar àquilo que seria aproveitável, para mais espalhado por uma tão longa extensão.
– E já agora diz-Me: se isto for uma autêntica Profecia, se aqui estiver gravada a expressão de um verdadeiro diálogo entre homem e Deus, estas páginas deixarão de ser maçudas e as pessoas não se vão assustar com uma escrita tão extensa?
– Não tenho dúvidas: se aqui estiver, viva, a própria Palavra de Deus em estreito convívio com a voz humana, estas páginas serão literalmente devoradas por multidões.
– E as trivialidades e a extensão não serão obstáculo?
– Pelo contrário, as trivialidades trarão Deus bem para a nossa beira e a extensão será só imagem da Infinitude inesgotável de Deus continuamente seduzindo.
– Vamos então agora aos problemas deixados lá atrás por resolver. Diz outra vez quais são.
– O possível desleixo na Fé, por não me levantar prontamente e a dúvida se me não estarei desculpabilizando para não me desinstalar do bem-bom, fazendo-Te dizer o que me convém.
– Olha: se Eu te dissesse claramente que a partir de agora te deverias levantar imediatamente quando acordasses, tu executavas?
– À letra!
– Então concentra-te bem dentro de ti… Pronto. Já me tentaste sentir bem no teu íntimo?
– Já.
– Viste-Me dando-te uma ordem daquelas?
– Não.
– Concentra-te de novo e tenta imaginar-me assim.
– Dando-me aquela ordem?
– Isso… Que viste?
– Foi impossível ver-Te assim.
– Impossível?
– Sim. Todas as vezes que tentava formar uma imagem Tua assim, ela não se formava, ou desfazia-se antes de se formar.
– Agora observa só o que naturalmente aparecer de Mim no teu coração.
– És só a minha Companheira, abraçando-me com uma ternura indizível, por ver que a minha carne está, de facto, perdendo as suas forças.
São 8:32!
terça-feira, 3 de abril de 2012
735 — É por amor que Deus permite o nosso sofrimento
– 9:54:12
Nunca Deus nos chamaria a atenção para um pecado nosso através de um pesadelo – assim me ensinou Jesus e, ainda hoje, também a minha actual Companheira do Deserto. Muito menos acumulando desgraças, de modo a provocar angústia e desorientação. A insegurança e a desordem sempre são puros frutos do nosso Pecado, que Satanás administra conforme convém ao seu projecto de banir da terra a memória de Deus. Quando, pois, as desgraças nos acontecem, sobretudo quando elas se acumulam num determinado momento da nossa vida, constituem sempre um claro Sinal de uma arremetida concertada do Demónio para nos fragilizar, de modo a afastar-nos de Deus, levando-nos, por exemplo, a desconfiar da Sua providência e protecção; talvez que por este caminho ele consiga mesmo levar-nos a abandonar, ou até a negar Deus.
Mas o Pai, do alto do Céu, tem sempre sobre nós o Seu Olhar atento. Se Lho permitirmos, Ele dirige esses momentos de mais violenta opressão exterior para a edificação dos pilares em que se firma a Construção nova dentro de nós. São esse pilares a Fé e a Esperança. Nunca, pois, as desgraças nos farão verdadeiro mal; fazem só doer, obviamente, porque retirar-nos da situação comum a todos os nossos semelhantes, isso Deus nunca fará, a não ser por morte ou por um qualquer excepcional milagre, por um muito particular motivo e sempre com carácter pontual; levar alguém a viver entre os seus semelhantes como que passeando-se pelo meio deles, imune à desgraça e à dor, isso é situação completamente inconcebível no Plano de Deus, porque Ele próprio nunca assim viveu desde que o Pecado existe; antes Se fez carne, para mais ainda Se conformar com a desgraça e a dor comum à nossa condição humana.
Deus permite, portanto, que as desgraças nos aconteçam, mesmo depois de O termos recebido no nosso coração com verdadeira entrega de apaixonados. Muitas vezes é justamente a partir daqui que as desgraças se tornam mais frequentes na nossa vida. Mas nunca porque Deus as envie propositadamente; muito menos se poderá pensar que possa ser Ele o seu autor. Trata.se apenas desta naturalíssima consequência de nos termos tornado Luz: as Trevas vão reagir, odiando-nos de forma directa e obviamente mais assanhada. Acontece, porém, dentro de nós, um fenómeno novo: passamos a sentir-nos seguros e protegidos para além do que em cada momento a nossa visão alcança. As forças que assim nos dão esta sensação de segurança são justamente a Fé e a Esperança. A Fé está sempre dizendo que Deus nos ama sem quebras; a Esperança diz-nos nesses momentos que o Bem sempre triunfará sobre o Mal.
E é tão forte esta sensação de segurança, que às vezes nos assusta: começamos a pensar que possa andar aqui metido o Tentador, infiltrando em nós manhosamente a presunção. Mas o Céu logo acorre, fazendo brilhar sobre nós a Luz do Discernimento. E mais uma vez temos a experiência do indefectível Amor de Deus, sempre próximo e apaixonado. Apenas insiste em que nos mantenhamos vigilantes.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
734 — Deus nunca ameaça; avisa informando
10/4/03 – 6:01
Acordei às 4:20. E estou desta vez muito intrigado com o tempo que decorreu até agora. Para além da falta de prontidão em me levantar, readormeci e tive um pesadelo: perdi o meu neto mais velho, de nove anos, numa cidade desconhecida, com hipóteses muito remotas de o reencontrar. Tudo isto me deixou bastante abalado, apreensivo, e em casos destes o caminho para reencontrar a Paz é sempre o diálogo com o Céu.
– Maria, prende-me a atenção apenas Tu, para que todas as vozes à minha volta se calem.
– São várias, as vozes?
– São, cada uma puxando para seu lado…
– Há alguma coisa de comum que elas estejam dizendo ou fazendo?
– Há: além de me inquietarem, todas contêm uma ameaça velada.
– És capaz de concretizar algumas dessas ameaças?
– Que vou perder o Céu, que vou perder o Z. D. e ainda outra, mais tarde, diz que vou perder a N.…
– Fazer ameaças é próprio do Céu?
– Não; o Céu faz avisos.
– Qual é a diferença?
– O aviso informa; a ameaça oprime. O aviso previne; a ameaça desnorteia. “Quem me avisa, meu amigo é”, conforme diz o meu povo; quem ameaça, é certamente meu inimigo.
– Dá, como exemplo, esse célebre aviso do Céu em que estás pensando.
– “Comerás o pão com o suor do teu rosto”. Aqui não há nenhuma ameaça, mas só um magoado aviso ao homem, para lhe mostrar a consequência do seu acto rebelde.
– Também tu fizeste algum acto rebelde, uma qualquer asneira pelo menos, que justificasse um aviso do Céu?
– Não sei. É por isso que recorro a Ti.
– Diz-Me uma coisa: a que propósito veio a insinuação de que estavas perdendo a N.?
– Não lhe vejo relação nenhuma com as outras coisas.
– Então foi só mais uma carga, em cima daquela que já tinhas às costas!?
– Sim, apenas me sobrecarregou.
– E achas que é esse o procedimento do Céu?
– Não. Mas parece-me que Deus permite às vezes a acumulação de problemas e dores em determinados momentos da nossa vida.
– Aconteceu isso já contigo?
– Já. Várias vezes.
– E sentias estar junto de Deus, em toda a união possível com Ele, nessas alturas?
– Sim, às vezes em intensos momentos de busca sincera de Deus.
– Se Deus, não fazendo, permite que alguém faça, tem certamente uma intenção…
– Sim, sempre uma intenção de Amor: Ele ama sempre, em tudo quanto faz.
– Recorda outros momentos da tua vida em que houve assim acumulação de problemas e vozes ameaçadoras. Era Deus avisando-te de algum mal que tenhas feito?
– Acho que nunca isso aconteceu.
– E entendeste porquê?
– Sinto que não é esta a forma de avisar que Deus utiliza: o acumular problemas sem nexo uns com os outros só cria confusão e Ele é o Deus da Paz.
– Que pretendeu Ele então, naqueles casos em que permitiu ao Diabo que acumulasse problemas?
– Justamente chamar-me a atenção para os métodos de actuação do Maligno, para que em mim se desenvolvesse o Dom do Discernimento.
– Apenas isso?
– Quis certamente também sujeitar a estas provas a minha Fé, para ela se habituar a ultrapassar obstáculos e assim ficar forte.
– Nunca te chamou a atenção desse modo para um qualquer defeito ou pecado?
– Não me recordo de que o tivesse feito…
– Mas, neste caso, aquelas situações que apontaste são efectivamente preocupações tuas!?
– Isso são.
– E não quererá Deus também por este meio dizer-te alguma coisa sobre elas?
– Julgo que apenas pretende manter viva em mim a vigilância.
– Não estás então perdendo culpavelmente ninguém!?
– Continuo sem saber.
– Mas isso não te deixa angustiado?
– Não: a actuação de Deus sobre nós nunca nos leva à angústia – foi esta uma das mais firmes lições que recebi de Jesus.
– Que foi então que o Céu te mostrou hoje?
– Que situações de acumulação de problemas díspares só podem vir do Demónio. Que por isso nunca devo agir com base numa qualquer pressão exterior violenta. Que devo apenas recolher-me no Silêncio e manter a vigilância.
São 7:49!
domingo, 1 de abril de 2012
733 — O Sábado
− 20:22:12
− Fala comigo ainda um pouco, Mestre. Estamos a chegar ao fim de um dia de Sábado…
− Porque referiste o Sábado?
− Tu bem sabes que as coisas me ocorrem sem eu saber de onde vêm…
− Tinhas em vista falar do Sábado quando te dispuseste a escrever?
− De maneira nenhuma!
− E queres parar um pouco a contemplar o Sábado?
− Quero, Mestre. Tu vês o ardor que me sobe no peito todas as vezes que contemplo coisas relacionadas com os Teus irmãos judeus. O Sábado é uma dessas coisas que conserva uma estranha sedução.
− Não sabes porquê?
− Talvez porque grandes coisas nele realizou Deus.
− Por exemplo.
− A Libertação do Egipto. A Tua Descida aos Infernos.
− Vês alguma relação entre a Libertação do Egipto e a Minha Descida aos Infernos?
− A Tua Descida aos Infernos foi a descida à mais funda escravidão em que nos pudéssemos encontrar. Neste dia desceste Tu à própria escravidão da Morte, donde era suposto não mais se poder regressar.
− E que levei Eu aí, à Morte?
− A Luz. A partir daqui ficou aberta a porta para o regresso ao Paraíso, mais ainda, à intimidade da Casa do nosso Pai.
− Diz porque referiste o Paraíso.
− Porque de repente me lembrei do aviso de Deus ao Homem: se comessem daquele fruto, morreriam. O Homem comeu e cumpriu-se o aviso de Deus. Foi esta a mais negra escravidão a que o Homem poderia ter descido e de facto desceu. Ora foi justamente aqui que Tu desceste.
− Por esse simples facto libertei o Homem dessa escravidão?
− Claro, Mestre. Todos os factos da Tua vida terrena têm um poder fatal: são definitivos, irreversíveis.
− A Descida aos Infernos pertence à Minha vida terrena?
− Foi assim que quiseste escrito: eu hesitei, mas Tu insististe em que escrevesse assim.
− Sabes porque quis assim escrito?
− Porque esta Descida faz parte integrante da Tua Incarnação, que consistiu na assunção de tudo aquilo em que o Pecado transformou o nosso barro. É esta a situação terrena em que vivemos, de que faz parte mais radical a escravidão da Morte.
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