No jardim da casa
Escrevendo ...
Breves dados biográficos

O meu nome é Salomão. De apelido Duarte Morgado.

Nasci no ano de 1940 em Portugal, na aldeia do Rossão, da freguesia de Gosende, do concelho de Castro Daire, do distrito de Viseu.

Doze anos depois, 1952, entrei no seminário menor franciscano: eu queria ser padre franciscano.

Doze anos depois, 1964, fiz votos perpétuos na Ordem dos Frades Menores de S. Francisco de Assis seguidos, ao fim desse ano lectivo, da ordenação sacerdotal: eu era o padre que tanto queria ser.

Doze anos depois, 1976, pedi ao Papa dispensa dos votos que era suposto serem perpétuos e do exercício do sacerdócio, que era suposto ser para sempre, casei e tornei-me pai de quatro filhas.

Doze anos depois, 1988, fiz uma tentativa extrema para salvar o meu casamento, saindo de casa. Mas o divórcio de facto consumou-se.

Doze anos depois, 2000, surgiu na minha vida o mais inesperado acontecimento, que começou a ser preparado, sem que eu disso tivesse consciência, no meio deste ciclo, 1994. Foi aqui que comecei a escrever a longa Mensagem que senti Deus pedir-me que escrevesse em Seu Nome e a que Ele próprio deu o título de Diálogos do Homem com o seu Deus no Tempo Novo. Os textos agora aqui publicados são excertos desta vasta Profecia preparando a sua divulgação integral, no tempo oportuno, que desconheço.


Moro há 30 anos em Leça do Balio, concelho de Matosinhos, distrito do Porto.


Não são estas palavras mais do que um testemunho daquilo que vi, ouvi, senti, toquei. Não estão por isso sujeitas a nenhuma polémica. Todos os comentários que se façam, ou pedidos que se queiram ver satisfeitos, sempre serão respondidos apenas com novos textos: de mim mesmo não tenho respostas.




Observações


Muitos e verdadeiros Profetas têm surgido nos nossos dias. Um deles é Vassula Ryden, cuja profecia, "A Verdadeira Vida em Deus", teve um decisivo relevo no meu chamamento a esta missão e revela uma estreita complementaridade com esta Mensagem que escrevo.

Os algarismos desempenham nesta Profecia um papel muito importante como Sinais. Foram adquirindo progressivamente significados diversos. Assim:

   0 – O Sopro da Vida. O Espírito Santo.

   1 – A Luz. A Unidade. O Pai.

   2 – A Testemunha.

   3 – O Deus Trino. A Diversidade.

   4 – O Mensageiro. O Profeta. O Anúncio. A Evangelização.

   5 – Jesus.

   6 – O Demónio.

   7 – O Sétimo Dia. A Paz. A Harmonia.

   8 – O Oitavo Dia – O Dia da Queda e da Redenção. O Homem caído e redimido. Maria de Nazaré.

   9 – A Plenitude de Deus. A Transcendência. A Perfeição. O Regresso de Jesus. O Nono Dia.

Alguns agrupamentos de algarismos adquiriram também um significado próprio. Os mais claramente definidos são estes:

   10 – Os Dez Mandamentos. A Lei. A Escritura.

   12 – O Povo de Deus. A Igreja.

   22 – As Duas Testemunhas de que fala o Apocalipse.

   25 – A Alma humana.

   27 – Salomão, o meu nome que, derivando do termo hebraico Shalom, significa o Pacífico, a Testemunha da Paz.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

530 — A primeira opinião sobre estes Diálogos

            Nota:
Os 10 textos seguintes são tirados do início do segundo volume dos “Diálogos do Homem com o seu Deus no Tempo Novo”. Enquanto o primeiro volume dá conta do festivo encontro com Jesus, este segundo, que inicia com uma apreciação muito negativa de um amigo a quem mostrei estes textos, marca a minha decisiva entrada no Deserto, onde, a par de uma visão muito clara da degradação a que o Pecado nos conduziu, sou surpreendido com as mais inesperadas e inimagináveis revelações.

29/12/94 Rossão         MV

   São 0:03. Estou no Rossão, ajoelhado neste quarto que habitualmente ocupo. Acabo de ler o dia 8/3/88 e 9/3/88, à procura de uma palavra de consolação para a minha alma prostrada e só. Encontrei isto: “Meu Salomão, guiei-te, transformei-te e, agora, deves avançar Comigo, de mãos dadas Comigo, no Meu Corpo Sangrento. Segue-Me e lembra-te de não olhar , nem para a direita, nem para a esquerda. Caminha sempre a direito, para levares a bom termo a tua missão. Não temas; tornarei a tua alma tão bela, que afastará e desarmará os Meus inimigos”. E, a seguir, (9/3) o consolo vem-me de ter encontrado na Vassula uma companheira de solidão e dor: também a ela um padre a considerou mensageira do Demónio. Se o M. O., padre, acreditasse no Demónio, ter-me-ia dito a mesma coisa. E aqui está a razão da minha dor: precisamente ao chegar a casa, ido da bouça e antes de sair em viagem para aqui, foi-me entregue a carta em que o M. O. responde ao pedido que lhe fiz para examinar os Diálogos e emite a sua opinião. Se eu andasse por todo o mundo à procura do meu pior inimigo, para ele se pronunciar, a resposta não poderia ser mais negativa, mais arrasadora!

   O juízo do M. O. é dogmático, fulminante, inquisitorial. O M. O. é contra a Inquisição. Mas os juízos emitidos pela Inquisição deveriam ser assim. Era a primeira tentativa de anunciar a Mensagem que eu creio vir do Senhor Jesus. E o resultado tenho-o aqui à minha frente sobre a cama: uma condenação inteira, inapelável.

   E agora? Eu via no M. O. a trombeta que anunciaria aos quatro ventos este Evangelho (não Te quero ofender, Jesus!). Fechou-me todas as portas. Neste momento não vejo mais ninguém com quem faça nova tentativa. Solidão. Dor. Só tenho o meu Jesus, que está muito calado. A minha Fé vacila. Mas sei que não vai apagar-se. O M. O. só me aponta aleijões e deficiências. São estas e só isto que agora vejo pesando sobre mim. Estou cá dentro fazendo uma afirmação certamente sacrílega: Jesus ao menos sabia-Se inocente, mas eu nem isso, eu sei que sou aleijado e pecador. O sacrilégio está aqui: a minha solidão é mais pesada que a de Jesus! Se Ele, o meu Jesus, ao menos viesse aqui consolar-me, dizer-me que compreende, que me perdoa aquele desabafo sacrílego…

   Só sei que Ele virá. Esta noite, amanhã, depois. Só por isto: eu posso ser muito mau, posso estar muito pervertido, mas não encontro nenhuma hipótese de o meu amor ao meu Jesus não ser sincero. Eu gosto muito de Jesus! E quanto aos homens, que o M. O. diz que eu não amo, há duas coisas que são verdade: não odeio nem sequer quero mal a ninguém e queria muito que todos fossem salvos e felizes.

   Jesus, não Te esqueças desta minha noite! Que nem uma gota do meu sofrimento se perca!

 30/12/94 – 4:12 – Rossão         MB

   Esperava ansiosamente ouvir uma Palavra de consolo do meu Senhor, porque é grande a dor e a solidão. A primeira resposta, que me pôs feliz, foi a hora a que olhei o meu relógio de pulso que, estranhamente, voltou a funcionar sem deficiência alguma. A mensagem dos algarismos é clara: “Anuncia ao Meu Povo!”. A segunda, que inicialmente não entendi bem, ganhou depois pleno sentido:

                            Dan 3, 25-45

   É a prece de Azarias, no meio das chamas. As chamas fizeram-me lembrar as fogueiras da Inquisição, onde ontem me parece que o M. O. me lançou (v. marca da Vassula, hoje, às 0:03). E esta prece não podia ser mais certeira.

    Vou deitar-me, porque está muito frio. Não ouço o meu Senhor. Mas o meu coração, no meio do silêncio, ficou em paz. São 4:40!!!

   Já deitado, olhei de novo a hora não sei porquê: 4:44!!! O problema é: a quem anuncio?

domingo, 11 de setembro de 2011

529 — O SENHOR

                                                Ver nota no início da mensagem 521

Confeitaria “Márcio”, 9/10/94                                                                                                      DL

    – É sempre com temor e tremor que começo a escrever.

   – Para quem estás a falar?

   – Para mim. Para o público. Para Ti. Nem sei. Só sei que é verdade: começo a escrever sempre com uma interrogação no coração: Será que Jesus quer que eu escreva?

   – E começas a escrever porquê?

   – Porque me deixo escrever.

   – Explica.

   – Há dentro de mim uma sensação, uma estranha confiança em que, a partir do momento em que eu comece a escrever, Tu não me deixarás dizer asneiras.

   (Tremo. Algo em mim diz que isto pode ser uma grande Tentação...)

   – Que Tentação é essa, assim escrita com maiúscula?

   – Jesus, muito puxas Tu pela minha cabeça…

   – Não fazes isso também com os teus alunos?

   –Faço. Exijo-lhes atenção absoluta. Quando vejo algum distraído puxo-lhe pela atenção. Digo sempre que o que se está a dizer é muito importante. Até julguei que isto fosse errado.

   – Importante é uma só coisa.

   – Então na medida em que as minhas aulas se aproximam dessa Única Coisa Importante será cada vez mais legítimo puxar pela atenção...

   – Forçar as pessoas é um pecado. Eu criei o Homem livre.

   – Então deixo abandalhar o ambiente nas aulas?

   – Tu sabes a resposta. Escreve-a.

   – Estás a forçar-me, Mestre! Prontos, eu sei a resposta: nunca se força quando se ama. Forçar sem amar é reprimir. A solução é purificar as aulas.

   –Como?

   – Amando os alunos.

   – E...

   – Obedecendo à instituição.

   – Explica isso, Salomão. Não está claro.

   – Tu hoje estás numa de me massacrar! Estranho Amor o Teu. Querido Amor! Vamos lá: obedecer à Instituição, às Instituições humanas, é respeitar os homens concretos que comigo a elas estão sujeitos.

   – Só estes?

   – E também os que fabricam e alimentam as Instituições... Eh, pá! Que turbilhão de coisas me está no espírito!...

   – Exprime uma de cada vez.

   – Obedecer. Obedecer é importante. Por exemplo, nunca faltar às aulas, nunca faltar a qualquer emprego, ser pontual, cumprir o que os patrões mandam!

   – Que escravidão!

   – Estás-me a gozar, querido Prof.!

   – Queria só que te mantivesses nesse assunto...

   – É importante para Ti, não é?

   – Para ti. Para vós. Eu dei o exemplo.

   – Mas Tu desobedeceste permanentemente às Instituições!

   – Recorda: durante trinta anos ninguém ouviu falar de Mim: fui um homem bem comportado.

   – Excepto aquela da adolescência, quando fugiste sorrateiramente à família e foste para o templo. Pelo menos podias ter avisado...

   –A Obra de Deus, quando irrompe naqueles que escolhe e a aceitam, é imparável.

   – Arromba toda a Instituição!

   – Arromba. A Ordem de Deus é TOTALMENTE NOVA!

   –Assim mesmo, letra maiúscula e tudo?

   – Assim mesmo.

   – Mas isso parece contradizer literalmente tudo aquilo que disseste (hesitei: disseste ou eu disse?) antes.

   – Não hesites: qualquer das formas estaria bem. Não há contradição em Deus! As contradições só existem na vossa linguagem, porque existem na vossa cabeça. Experimentai ver com o Coração e vereis como as contradições se esfumam e a Luz tudo inunda, tudo esclarece, tudo harmoniza.

   – Mas, Senhor...!

   – Escreve isso que sentiste.

   – Quando digo Senhor sinto-me muito feliz! Apetece-me escrever do tamanho desta folha.

   – Porque não escreves?
  -SENHOR

   – Exprime o que se passa aí dentro.

   – Aí?

   –Aqui dentro. Tens razão. Gostei que me chamasses a atenção.

   – A Ti, SENHOR?

   – Gosto muito de ser chamado à atenção pelas minhas criaturas!

   – Ah! Queres então que diga o que se passou aqui quando escrevi aquele SENHOR tão grande?

   – Quero.

   – Que desperdicei meia folha de papel.

  (Riso muito espontâneo de Jesus)

   – E que mais?

   – Que quase não ia cabendo na página à direita...

   – (ainda rindo) E que mais?

  –  Que Tu rebentas com a lógica toda! Com a estética toda! Com toda a minha mesquinhez!

   – Estás chateado com isso?

   – Ei! Chateado é calão! (Riso de Jesus e acho que de todo o Céu. Acho.) Não, não estou nada chateado. O que mais quero é rebentar com isto... com este espartilho em que vivemos  enfiados, com estas “boas maneiras” que nos ensinam a ter Contigo! É mesmo assim, Jesus! Arrebenta! Arrebenta! Arrebenta com tudo!

   – Vá, diz isso que agora te desceu ao pensamento.

  – Desceu?

   – Do Céu.

   – E deixo assim várias coisas que estão para trás? Assim incompletas?

   – “Se dizes tudo, fazes das pessoas parvas”. Não foi assim que disseste aos teus alunos na aula passada?

   – Foi. E pronto! Lá estás Tu a interromper! (O Céu ri) Assim nunca mais explico...

   – Muito gostas tu de explicar!

   – E não se deve?

   – Eu expliquei alguma coisa antes de morrer?

   – Explicaste. Pelo menos uma parábola.

   – Uma! E quantas deixei por explicar? Quero os meus filhos inteligentes!

   – Ah! Mas aquilo do... do quê? Vês? No meio destas descobertas todas em avalanche até já me esqueci do que tinha para esclarecer! Tu mandaste!

   – Eu nunca mando.

   – Tu pediste.

   – Eu faço tudo amando.

   – E prontos! Explico ou não explico?

   – Explicar o que é?

   – Ex-plicare: tirar para fora desemaranhando, desenredando. Como é? São quase 11 horas! Falto à Missa?

   – Que achas?

   – Que não! A Missa é Eucaristia! A Missa é onde Tu Te dás a comer, onde a Tua Humanidade pode ser mastigada, digerida, assimilada por nós! Fantástico! Não disse heresia nenhuma?

   – Vai para a Missa.

   – Assim sem ter acabado a folha?

   Mesquinho! Lógico! Banal!

sábado, 10 de setembro de 2011

528 — TUDO NOVO

Ver nota no início da mensagem 521

Confeitaria “Márcio”, 8/10/94       DL

    Vem, Jesus, e enche-me da Tua Presença! Quero muito estar Contigo. Quero muito, desejo ardentemente que Tu me tomes todo, para que todo o meu ser faça a Tua Vontade. (Silêncio.) Fala, Jesus! Com a Tua voz forte, a Voz que fez surgir a Criação! Com a Tua voz bem nítida, a Voz com que Te ouviam os Teus discípulos, quando pisaste, em carne da nossa carne, a Terra que nós pisamos! Fala, Jesus! Eu creio-Te vivo, actuante e eficaz hoje como “naquele tempo”! Fala, Jesus, meu único Amor! É verdade. É sincero isto, Tu sabes: não tenho outro amor. Por isso fala, Mestre! Ou será dos meus ouvidos? Andarão eles ouvindo vozes que não são a Tua Voz?

   Há muitas vozes falando ainda forte em ti. Porque me chamaste Mestre?

   Porque Te sinto Mestre, o único Mestre. És o único que sabe dar aulas. És o único que sabe ensinar. (Confusão interior. Sentimentos contraditórios. Assuntos vários se entrecruzaram.) Jesus, dá-me a Tua Paz!

   A Minha Paz não é pasmaceira. Não se constrói sem guerra.

   Sê original, Jesus! Isto já eu sei! (Tenho a sensação de que Jesus sorriu.) Tu não Te zangas com estas impertinências!?

   Eu sou muito diferente do que vós pensais.

   És Tudo novo!

   TUDO NOVO.

   Está para vir Tudo Novo? Anda muita gente a dizer que vem aí o fim do mundo.

   O princípio do mundo. Vem aí um Mundo Novo. Eu não destruo. Eu estou sempre construindo. Vem aí TUDO NOVO. Eu sou o Deus da Vida. Sou vivo sempre. Nunca durmo. Velo e actuo sempre. Actuo sempre e velo. Não sou surdo nem mudo. Eu escuto tudo! Eu falo sempre! Abri os vossos ouvidos e escutareis, bem nítida, a Minha Voz!

   Tremo, Jesus: saiu-me esta grande frase, estas frases todas na Tua Primeira Pessoa: EU. Como pôde isto ser? Se isto não é Teu, eu sou o maior dos pecadores!

   Porque duvidas? Não pediste a Minha Presença no início deste escrito?

   É verdade.

   E não sabes que “tudo o que pedirdes ao Pai em Meu Nome” vos será concedido?

   Eu propriamente não pedi ao Pai.

   (Jesus fala enérgico).

   Ai não? Relê o que escreveste!

   (Vou reler. Reli.)

   Eu digo “Vem, Jesus”, eu falo directamente para Ti.

   – E que pedes?

   A Tua Presença.

   E estarei Eu alguma vez presente sem o meu Pai?

   Ah! Pois... “Eu e o Pai somos Um”.

   E que mais, que mais pedes tu?

   Que todo o meu ser faça a Tua Vontade.

   Lembra o Pai Nosso.

   Ah, pois... “Pai,... seja feita a Tua Vontade”!

   Mas pediste mais.

   Sim. Que fales com a Voz que fez surgir a Criação.

   Diz o início do Credo.

   “Creio em Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra!” Ah!

   E mais! Mais! Que pediste mais?

   Não pedi mais nada. Só que falasses.

   “Eu creio-Te vivo” - pediste tu.

   Mas isso não é pedir.

   Então que é? Já tens a fé toda que podes ter?

   Não.

   Não queres mais fé?

   Quero, quero, quero!

   Pediste ou não?

   Ah... Então pedi... Fazer um acto de fé é pedir?

   Que sois vós senão pedintes? Que outra coisa podeis fazer senão pedir?

   Podemos agradecer.

   Agradecer é ainda pedir.

   Ah... quando agradeço é porque foi bom  o que me deste e desejo mais, mais, mais.

   E Eu tenho sempre mais para dar.

   É verdade, Senhor. Tens sempre uma coisa nova para me dar. De há uns tempos para cá...

   É sincero isso?

   É. Tu sabes que é. Às vezes não Te sinto, pareces-me longe, mas Tu sabes que no fundo eu sei, eu creio que Tu nunca me abandonas, que Tu estás sempre aqui. E agora. Em cada momento. Eu é que fujo por longos momentos. Eu é que vagueio por sítios vários...

   Não tenhas medo. A Imagem de Deus em ti não está ainda completamente restaurada.

   Mas vai estar?

   Vai.

   Jesus... até tremo com a energia e determinação com que escrevi aquele “Vai”! Se não foste Tu que o disseste, eu sou o maior pecador sobre a Terra!

   – Porque duvidas?

   Porque ... porque... não sei... tenho medo... aqui não há certezas absolutas... eu sei, eu sinto aquele olho esquadrinhando... Eu sei que o Demónio existe! Prontos! E é muito mau. Muito manhoso. Infiltra-se onde menos se podia esperar...

   Não hesites: diz isso que te está no espírito [Apresentei aqui o caso de X, em que me parecia haver uma possessão do Demónio].

   Ah ! Agora é que Tu me apanhaste ! Bendito sejas. Já estava a atirar pedras a outros !

   É a grande Tentação de todos os homens: acusar, acusar, acusar! Culpar, culpar, culpar! Ver, nos olhos dos outros, o mais pequenino argueiro!

   É verdade. Quer dizer que é mentira aquilo do Demónio em X?

   É tão verdade como em ti!

   Não pode ser! Eu...

   Não te mostrei Eu a subtileza e grandeza do teu pecado nos últimos tempos?

   Sim. Mas em mim é pecado; em X é Demónio !

   Como?!!! Que confusão é essa?

   É verdade, Mestre! Pára aqui a aula! Cria silêncio dentro de mim! Esclarece-me com a Tua Sabedoria!

   Então vá. Com calma. Quando tu estás continuamente imaginando-te no palco rodeado de gente, de multidões suspensas dos teus lábios, da tua atitude (humilde!!!) dos teus gestos (teatrais!!! ), o que é isto?

   É um pecadorro!

   Já desapareceu o pecadorro?

   Não. Frequentemente lá estou eu no palco, impressionando a assistência.

   Tens dificuldade em ver-te livre disso!?

   Ui! É horrível. É uma autêntica mania. É uma obsessão!

   É uma possessão!

   Ah! Pois![…]

   Estás tão cego como X, Salomão!

   Pois! Quando eu me ponho no palco, desviando para mim a glória que Te pertence, eu estou a impedir as pessoas de Te conhecerem, de conhecerem o Pai, de serem movidas pelo Espírito. Eu estou a enganá-las! Eu estou a levá-las à frustração! Eu estou a “secá-las”, como já me disse a M.! Eu estou a matá-las! Eu estou a agredi-las, a fazê-las sofrer!

   Isso, Salomão. Até talvez tivesses exagerado, não? (Jesus está com um sorriso maroto na cara. É muito querido).

   (Pausa. Vejo as horas: são 10:15. É sábado. Não sei se Ele quer que eu escreva mais... Interrompeu:)

   Escreva... quem?

   Agora é que Tu me lixaste, Jesus! (Fiquei aflito com o calão que empreguei) Esta intimidade Contigo, Mestre... não sei... eu nas minhas aulas marco bem as distâncias e acho que deve ser assim! Eu sou ali o professor e tenho o meu lugar e eles são os alunos e têm o lugar deles. Lugares diferentes. Muito diferentes! É o que eu digo também em casa: eu sou o pai! Vós sois as filhas! Não estais ao mesmo nível que eu! Não admito discussões ao mesmo nível! A mim foi-me entregue a  missão de mandar, de ordenar em todos os sentidos: de mandar, de pôr ordem, de coordenar; a vossa situação é de educandas: deveis obedecer. Mesmo depois de mais crescidas e autonomizadas, exijo-lhes respeito de filhas. Disse isto com toda a clareza à B. há pouco tempo. Ela ficou muito admirada, talvez chocada e até creio que zangada.

   Tirano! (Jesus fez uma – falsa – carranca).

   Não ponhas essa cara, Jesus! Há uns tempos atrás Tu ensinaste-me uma coisa que eu nunca tinha visto: a Ordem! Há uma Ordem cerrada no Universo! Há uma Ordem que Tu sonhaste para as Criaturas superiores – anjos e homens. Só que aqui a Ordem foi violada porque Tu, Surpreendente Amor, incrivelmente nos criaste LIVRES! E é esta a grandeza que nos esmaga! E é este o Formidável Amor que para sempre nos há-se seduzir!... Olha, Jesus, se não me interrompes, eu falo sempre... Tu sabes que eu me sinto literalmente esmagado e absorto por aquele MOMENTO em que Tu, Trindade Omnipotente, decidiste criar-nos livres! Nasceu aí a possibilidade de Te amarmos como Tu nos amas. E nasceu aí a dor, o sofrimento que ensopa toda a Terra!... Trava-me, Jesus! Manda-me parar, senão... sei lá, eu ainda vou dizer alguma asneira.

   Não tenhas medo, meu querido Salomão!

   Bem hajas, Jesus, meu querido Mestre! É bom estar Contigo! “Façamos aqui três tendas...” O Tabor deveria ter sido isto, multiplicado por mil, por milhões... sei lá! A Tua Presença, o Teu Mistério é arrasador! Seduz e esmaga. Mas é bom! É tão bom, Jesus!

   Faz pausa. Tem calma! (Sinto Jesus contente. E o Pai muito contente. E o Espírito muito vivo e feliz) Onde íamos?

   Na Ordem.

   Eu disse “Tirano!” Essa tua mania dos lugares marcados não te pode levar à tirania?

   Tu é que sabes, Mestre. Mas queres que seja eu a dizer? Está bem: olha, eu descobri (Tu descobriste-me!) que onde há anarquia não pode haver vida.

   An-arquia quer dizer “sem cabeça”, como tu sabes...

   Pois. Já sei o que queres dizer, onde queres chegar: Cabeça só há uma – a Tua e mais nenhuma! (Jesus deu uma gargalhada bem disposta, muito bem disposta!)

   (ainda a rir-se:) E não é verdade?

   É! Eu sei que é. Oh, como eu queria que fosse já aqui e agora absoluta verdade! Mas essa relação cabeça-corpo, mandar-obedecer, cérebro-músculos está reproduzida na Tua Criação. Contemplei há pouco tempo uma aranha, quando estava a pintar a casa: ela tem umas pernas enormes, várias, perfeitamente comandadas a partir do proporcionalmente pequeníssimo corpo, que por sua vez há-de ser comandado por um incrível pequeníssimo cérebro que constrói, comandando tudo “aquilo”, a incrivelmente perfeita e bela teia. É assim com a aranha, hás-de querer que seja assim com a família, com a escola... não?

   É melhor que fiques com dúvidas.

   Olha que esta! Que jeito de ensinar! Intrigante, querido Mestre!

   Diz o que tens na cabeça.

   Que nestas páginas nunca escrevo aquilo que planeio escrever.

   Explica.

   Às vezes, muitas vezes, quando falo Contigo, imagino-me escrevendo a conversa. Tão giros são os diálogos, Tão surpreendentes são as descobertas, que tenho pena que não fiquem registadas.

   Só por isso querias vê-las escritas?

  Não. Por vaidade. Descubro que é sobretudo por vaidade. Mais uma vez, quando dou por mim, imagino-me lido, admirado, louvado pelos eventuais leitores, milhões deles. Vaidade. Este monstro horrível.

   Vês quanto falta ainda? É tão difícil reconstruir em vós a Imagem de Deus!

   Porquê, Senhor? Não és todo-poderoso?

   A Liberdade, Salomão. A tal Liberdade que te esmaga, que te empolga, que te seduz. A origem do Amor e da Dor. Vai trabalhar. São 11 horas. (Choro. Jesus é Deus. E é muito BOM!).